Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2015

OS CROMOS A COLEGA POR RITA FERRO

COISAS LIDAS

A Maria da Conceição, caramba! Gozava comigo por ser loira e difamava-me dizendo que eu lavava o cabelo com camomila. Eu fazia troça do seu nome e distribuía desenhos nas aulas com ela fardada e de carrapito.

Era um ódio feroz, semeado no campo de basquete e fortalecido no intervalo das onze, no tempo em que as afrontas de escola assumiam a gravidade de crimes.

Um dia, a professora de português pediu-me que conjugasse o futuro perfeito do verbo ser, e eu, que sempre fui despistada, empreguei o condicional e espalhei-me ao comprido. A Conceição enfiou a cabeça dentro da carteira para abafar as gargalhadas e só descansou quando viu a professora arregalar os olhos e toda a aula a explodir de rir. Solucei depois, trancada no quarto de banho, e jurei ao espelho que um dia me vingaria. Cheguei a passar noites em claro suplicando a Lucifer que me inspirasse. Nunca o consegui, porque ela era brilhante a desmoralizar-me; nas aulas de francês ridicularizava-me o meu acento, nas de ginástica abanava o espaldar para me fazer estatelar de borco, e, no laboratório, atirava-me ratos mortos para cima só pelo prazer de me ouvir guinchar. Levantar as saias e mostrar o que não podia. Sofri tanto esta marcação que cheguei a rebaixar-me para lhe pedir tréguas; mas, longe de se apiedar, a Conceição convertia as minhas súplicas em troféus de caça.

Foi assim até ao fim do liceu.

Contava a toda a gente que a minha mãe pintava a boca de encarnado, espalhava boatos de que eu trazia a cabeça infestada de piolhos, e sempre que via um rapaz aproximar-se de mim, antecipava-se: “não andes com ela. Passa o cabelo a ferro e depila-se com Gillette»

Um martírio.

Não havia falha minha que não alardeasse, nem fraqueza de que não se aproveitasse, e, quando não tinha por onde pegar, inventava.

Era impossível vencê-la, porque o seu ódio não conhecia códigos e possuía a mais delirante imaginação para o mal que conheci na minha vida. Com uma adversária deste calibre, não tive outro remédio senão aprimorar a minha conduta e tornar-me inimputável. Resultado: subi as notas nesse período e aquilo que começou por constituir um expediente meramente defensivo acabou, sem querer, por me dar a taça. As professoras citavam-me como exemplo e, rapidamente, passei de pobre diabo gozado nas aulas a aluna com prestígio e duas festas por sábado.

Acreditem ou não, o sucesso que conquistei nessa época, e não voltei a experimentar, devo-o exclusivamente ao ódio militante de Maria da Conceição.

Orgulhosa de mais para desistir, começou a tornar-se patética nas suas infrutíferas tentativas para demolir o meu êxito; e quanto mais se esforçava para me atingir mais aumentava a minha popularidade.

Todo o liceu conhecia a nossa rivalidade e, se antes as minhas colegas se deixavam seduzir pela graça das suas diatribes, passaram, gradualmente, a render-se á tenacidade dos meus métodos e aos méritos da minha vantagem.

Em pouco tempo a situação inverteu-se: eu era uma adolescente inteiramente feliz, com amigas á perna e namorados aos pés, ela, uma gorducha azeda com acne, sobrancelha a unir e sacos do «rei das meias». E no dia histórico em que tive um quinze a português e ela, por sua vez, um seis ou sete, experimentei a glória de a ver escorraçada da aula como um violador de crianças no momento em que eu saia pela mesma porta levantada em ombros por uma multidão de batas em alvoroço.

Pareceu-me o dia mais feliz da minha vida aquele em que a vi desfazer-se em lágrimas, derrotada, agarrada á pasta; mas acabou por não ser. Não me lembro de ter sentido dentro de mim a frescura de uma consolação. Vingada, disse-lhe apenas «Eu serei, tu serias…»

Não voltei a encontra-la, mas soube de fonte segura que triunfou em todas as frentes da vida. Ao contrario de mim que voltei a ser a criatura defeituosa que era antes de a conhecer e que, passados todos estes anos, ainda se engana a conjugar o futuro.

Querida. Saudosa Conceição: devo-te o que ainda hoje respondo quando me apanham em baixo: “Estou a precisar de um bom inimigo»


publicado por AnnaTree às 10:26
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