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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

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02
Fev15

OS CROMOS A DOMESTICA POR RITA FERRO

AnnaTree

COISAS LIDAS

OS CROMOS A DOMESTICA POR RITA FERRO

Falo de certa mulher casada que trabalha a tempo inteiro no expediente doméstico, por vocação ou exclusão de partes, limpando a casa e engordando a família.

Essa mesmo: Essa mátria de peito familiar e anca barril forme que vive na cozinha á roda do tacho, lava as paredes com lixivia, pendura a roupa na corda por ordem decrescente, descasca as ervilhas e entala as favas, areja os cobertores á janela, faz croché durante a novela e amor completamente ferrada.

Exactamente: a inimitável patroa portuguesa, crente em Deus e no seu homem, com devoção por Fátima e pelo benfica, que mendiga receituário nos centros de saúde, vai de autocarro ao híper para aproveitar a promoção dos filetes de pescada pescanova, pendura na entrada um azuleijo de boas-vindas para saudar «quem vier por bem» e não hesita em desancar á paulada quem suspeitar que não vem.

Nem mais: essa mãe coragem sem horário, que sabe as carreiras de cor, o autocarro 26 para Sapadores r o 38 para o  Calvário, sofre de varizes e de espondilose, usa corpete de cós alto e combinação á antiga- não vá desmaiar na rua e aparecer ao doutor descomposta-, que se levanta ás cinco e meia da manhã para cozinhar de raiz a jardineira para a marmita  do marido e para o termos do Tolinho Manuel, madrinha e comadre de «uma porção» de gente, que perfuma os prédios com peixe-espada frito á hora do almoço, que diz «prontos», «drogado» , «ouvistes», «destroca o dinheiro» e «controla a rotunda», com família «na» França e aliança encalhada na gordura do anelar bojudo.

(…) Exactamente essa matraca que julga as outras por dá cá aquela palha, como se o sexo fosse «porcarias» e como se a abstenção imposta por um marido capado a brise continuo fosse uma virtude dela. Um marido esmagado por uma bata 46, arregaçada, num quarto com guarda vestidos e psiché, espelho bisculé e edredão nyloso igual ás cortinas, á camilha e á alma, com a Sara Diana Carolina Ágata Romana, carinha mais jóia, a dormir aos pés no sofá cambalhota.

(…)

Alberga a mãe e o pai velhotes, os netos pequenos, os gatos tinhosos e os filhos do irmão «deixado pela mulher, uma rameira», que corta o cabelo curto para não «transpirar», faz permanente uma vez por mês, enfeita as campas com flores de plástico