Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2015

OS CROMOS A MENINA BEM POR RITA FERRO

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SOIREE II BY KATHRYN MORRIS TROTTER COISAS LIDAS

Foi educada numa ordem religiosa espanhola e aprendeu francês, lavores, Jesus Cristo e Françoise Hardy, tudo de uma assentada. Assinou o «Salut Les Copins» e a «Mademoiselle Age Tendre». Desprezou a Sheila não por cantar pior que as outras, mas por ter o mau costume de mobilar a colcha da cama com ursinhos de pelúcia. Dançou o «Twist», o «Hully-Gully» e o «yé-yé» como ninguém. Dizia seis vezes «que tara» e «a menina p’cebe» por frase. Tinha três festas por sábado, mas entrava á crava sempre que podia: era giro. Pifava os discos nas festas e dinheiro às criadas, e rendeu-se ao Eça por curiosidade sexual. Pelava-se por romances de Max Du Veuzit, e trocava com as amigas fotonovelas «Capricho» e «Grande Hotel» -onde raparigas com olhos sublinhados a lápis e cabelos lisos até á cintura sonhavam casar-se com médicos já casados. Exasperou os professores por devassar a clausura das freiras para roubar hóstias não consagradas, andar de moto de minissaia e roubar churros nas quermesses do colégio. Não era insolente comas as madres, era cruel. Fumou desde os onze anos. Foi expulsa várias vezes. Não acabou os estudos por razões estéticas: achava o pai Mattoso «dramático» e o Lavoisier «possidoníssimo». Estou a falar da típica filha de uma «família boa» dos anos sessenta: católica não por devoção, mas por tradição, e de direita não por razões políticas, mas genéticas. Não tinha romances escaldantes, mas namorados com bom aspecto. Jamais dizia «amo-te»; o máximo que arriscava, em dias de grande tensão sexual, era «o menino não sonha, não acredita, não pode imaginar o que eu gosto de si! “Nunca dava beijos na boca antes do pequeno-almoço, achava «um nojo». No colégio, gozava as colegas que tinham cabelo oxigenado e lingerie de cor (é sabido que as suas vitimas, hoje, estão todas no governo) Ia ao cinema de «Mademoiselle» atrás e só podia sair á noite acompanhada do irmão mais velho- sabe-se que muitos deles debutaram com conceições de bigode e carrapito, e que a maioria penou em prisões portuguesas por tráfico de droga e assaltos á mão armada (sabe-se até que as primeiras violações divulgadas em Portugal não foram na Amadora, mas na quinta da Marinha) Está bem: ra ela que chamava «tia» e «tio» a todos os amigos dos pais, independentemente da consanguinidade; mas primeiro teríamos que carregar em cima do nosso povo que sempre fez o mesmo e num âmbito mais vasto, e também sem precisar de parentescos (exemplos: «ó ti Rosa, ó ti Manel») A menina bem era impagável: não depreciava as pessoas por terem pouco dinheiro, mas por dizerem «mala» em vez de carteira, usarem bikini ou darem dois beijinhos. No colégio vestia farda, mas aos fins de semana também:«kilt» escocês ou calças do «Delfieu», chemiser branco e camisola de lã com tranças, sempre da mesma marca: «John Cage» Como não sofreu na infância, é inofensiva: não é má, nem rancorosa, nem nefasta para ninguém; é só infantil a falar, geba a vestir e rudimentar a pensar. Mas a menina bem é hoje cobiçada por divorciados espertos. É separada, mas óptima madrasta. É pobre, mas aristocrata. É inculta, mas sabe educar um filho. Dá erros de português, mas fala línguas sem assento. Não sabe cozinhar, mas sabe receber. Não sabe fazer contas, mas sabe caber no que tem e governa uma casa como ninguém. E a genuína menina bem muito cuidado com as imitações, uma menina bem não é uma barbie- educada á inglesa catolicamente, não só não usa palitos como não os põe. Na pior das hipóteses, talvez se conclua que o mais grave pecado da menina bem é nunca ter deixado o colégio. E não há dúvida de que lá se safou em termos profissionais: algumas trabalham nas boutiques da Lapa ou nos prontos a vestir das Amoreiras, outras nos gabinetes dos novos gestores e dos novos ministros, a quem a volúpia de terem uma suposta direita a servir-lhes o café e a marcar aviões compensa tudo: até da contradição social em que são, vamos lá, forçados a viver.


publicado por AnnaTree às 18:16
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