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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

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16
Mar15

OS CROMOS O BEBÉ POR RITA FERRO

AnnaTree

Sempre achei que o bebé, essa bola de carne tenra e macia, que fita os dedos entornando os olhos e dá arrotos sem dizer «com licença», essa vida tão frágil e aflitivamente dependente da nossa, que cai se a largarmos e morre no primeiro segundo em que nos distraímos, esse óvulo que fecundamos por distracção, fraqueza, incúria, prazer e raramente amor exactamente por ele, esse feto que cresce no útero e morre no limbo, esse anjo também obrigado a viver no inferno, no nosso, esse inocente condenado a expiar os pecados de uma coquete qualquer de cabelos ruivos, ou de um marujo esganado por despejar em alguém, essa coisa, esse ser, essa essência, esse fruto, esse ente cuja única coisa que exige de nós é colo, ternura, calor e leite, como se não fosse nada e como se não fosse tudo o que também nós, ainda nós, continuamos a querer em adultos, sempre achei, dizia eu, que tem sido inexplicavelmente negligenciado pelos artistas. Vá-se lá saber porquê. Talvez porque os bebés não sejam cultura (já nada me espanta), talvez porque não tenham cultura (só nos faltava essa), talvez até porque tendo eles moleirinha em vez de crânio acabado, não têm, não podem ter, nunca terão a força, o carisma ou a consistência de personagens literárias. Não vou á literatura por que não me apetece, não vou á História porque não vem a prepósito, não vou á Musica de que só gosto de ouvir, mas vou ao cinema de que já sinto saudades. E aqui vai. Visconti, «O Intruso»: um recém-nascido de posto na neve (de prepósito) para morrer gelado. Plansky «A semente do Diabo»: uma mulher possuída e fecundada pelo demónio em pessoa. Peter Greenaway,«o bebe de Macôn»: uma mãe que gera um déspota de fraldas com poder absoluto para assassinar todo um povo. E isto irrita-me, sabem? E nem sequer é pelo facto de ser católica. Mas, tanto quanto me lembro, o novo testamento é a única historia que faz do bebe personagem principal e logo com tanta força que não só o torna imortal como nos eterniza também. Não admira. Aquilo é que se pode dizer mesmo que é obra do Criador

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