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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

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27
Abr15

OS CROMOS O NANDINHO POR RITA FERRO

AnnaTree

O Nandinho tem vinte e seis anos e mora na vivenda iluminada á beira de uma qualquer estrada do país. O seu pai foi um trabalhador valoroso que tirou o pé do esterco com o suor do seu rosto, ao fim de uma vida inteira de trabalho insano á frente de negócios de têxteis ou de construção civil. Mas, ao contrário desses básicos edificantes, que mourejam até estoirar e conseguem singrar á custa de muita humilhação, o Nandinho não tem qualquer espécie de mérito: Não usa os braços para trabalhar, mas para fazer manguitos e meter quintas velocidades. E como, ao contrário do pai, o Nandinho nasceu na abundância, a ausência de valores vai determinar o seu futuro: dissipar sem contemplações a fortuna acumulada pelo pai. A singularidade do Nandinho não pode sequer ser aferida por parâmetros culturais: a única coisa que tem na cabeça é gel. Aos fins-de-semana, paga copos ao cortejo de amigos que o rodeiam e impressiona as moças da região ao volante do seu Ferrari. Toda a gente estala a rir com as suas chalaças não por ter qualquer espécie de graça, mas por dispor de dinheiro suficiente para arrotar. Alternar mulherame e dizer palavrões impunemente. (…) Nem nunca estudou, o Nandinho: limitou-se a dar ao pai a ideia de que é predestinado para deitar mãos ao seu dinheiro. Para ele, a fortuna paterna, dolorosa e laboriosamente conseguida, é um bem consumível para usufruto imediato. É ,a liás, graças a parvalhões como ele que, para desgraça de muitas regiões do país, as fortunas só duram duas gerações. E o Nandinho não faz a mínima ideia do que seja gerir. Quando se apropria finalmente dos negócios do seu «velho», adopta a estratégia mais «soft»: não paga impostos, não faz amortizações, fica a dever os salários em atraso, compra mais um Ferrari ou um apartamento em Tróia, pede dinheiro aos fundos comunitários, e, no fim do ano, se houver aperto, faz um empréstimo ao banco através de um amigo politico. Voilá! (…) Mas não é só por isso que o Nandinho se considera importante: convém não esquecer que é nas mãos de perdulários como ele que está o futuro das maiores empresas do país. (…) Como todos os predadores, o Nandinho é um animal territorial que só subsiste no ambiente que lhe é próprio: fora dele, definha por falta de corte, de aplauso, de popularidade. É mais por isso, aliás, do que por bairrismo, que raramente deixa a sua região. (…) A este respeito, muita gente se pergunta como é que este exemplar aviltante conseguiu sobreviver incólume á raiva da extrema-esquerda; pessoalmente, só encontro uma explicação: é que, de alarve e de Nandinho, todos temos um pedacinho.

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