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Arvore De Letras

Coisas lidas,ouvidas,cantadas, declamadas,faladas,escritas

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13
Nov14

ROGÉRIO SAMORA, AUTO- RETRATO in Revista Única

AnnaTree

COISAS LIDAS

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RS- Venho de uma família muito humilde. Nasci na Amadora, logo depois de os meus pais terem casado. Admito que se tenham zangado por causa do meu nascimento não ter sido na altura certa. O meu pai começou a trabalhar aos treze anos e não sabe de quem é filho. Penso que os meus pais não teriam condições económicas necessárias para me criar o que levou a minha avó, que ainda é viva, a oferecer-se para o fazer. Vivi com ela até aos sete anos, altura em que o meu progenitor entendeu ser tempo de me ir buscar.

Ela foi professora de danças de salão na escola Mendes Pereira e trabalhou no Café dos Pretos, na feira popular. Aliás a sua presença marca todas as memórias que tenho desta feira, do cinema e do teatro de revista, porque tendo amigos nesses meios, gostava de os frequentar. Conheci pela sua mão o Royal, o Ódeon e os Condes, onde me deixava sozinho e depois me ia buscar. Foi assim que, aos quinze anos, vi o Último Tango em Paris. O que não deveria ter acontecido, porque nessa idade nem tinha formação nem estava preparado.

Não acabei o sétimo ano, o que levou o meu pai a pôr-me a trabalhar numa loja de electrodomésticos na Avenida Almirante Reis. Levava-os às costas, e entregava-os na casa das pessoas. Vivi coisas complicadas. Fui um rapaz triste. Andei sempre á procura de afecto, á procura de mim. Se calhar, representar era um desejo de viver bem comigo e de viver bem com os outros, A minha vida de actor, a que me interessa, começou no dia em que fui a uma entrevista com o La Féria. A peça, A Paixão Segundo Pier Paolo Pasolini, era encenada por ele e teve sete meses de lotação esgotada. Fiquei seis anos na Casa da Comédia. Lá fiz de tudo, como era usual na época. Representei, fui assistente de produção, parti paredes. O talento é um ponto minúsculo, um átomo. O resto é técnica, é dedicação, é muito, muito trabalho.

Costumo dizer que o meu labor é roubar almas que depois devolvo. Neste momento ainda não resolvi a última e já tenho outra roubada. A carreira internacional fi-la sem sair daqui. Nunca senti necessidade de me internacionalizar. Prefiro que seja o nosso cinema a fazê-lo! Toda a minha vida é pontuada de castings. Ainda hoje os faço. A minha história enquanto actor e enquanto pessoa foi, sempre, a de ser sombra, de ser secundário. É se hoje preciso de protagonismo é para os trabalhos que estou a fazer. No resto, sempre quis passar despercebido. Nunca procurei a fama.

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